Preservação da Amazônia depende de recursos globais e cooperação internacional

Texto de Natália Mello. Edição de Alice Martins Morais. Fotos: Divulgação (capa) / Natália Mello
01/07/2026 16:05 Atualizado em 01/07/2026 17:52

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Este conteúdo integra a cobertura especial do Amazônia Vox em parceria com a II Semana do Clima da Amazônia. Pode ser livremente reproduzido, desde que os créditos sejam atribuídos ao Amazônia Vox.

O futuro da maior floresta tropical do mundo passa, obrigatoriamente, pela ciência que vive no chão da Amazônia, seja ela feita nos centros de pesquisa ou no território, pelas comunidades tradicionais. Como parte das mais de 70 atividades autogestionadas da II Semana do Clima da Amazônia, a Trilha BRC (Caminho da Biodiversidade) transformou o Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi em uma vitrine de tecnologia e preservação. Por meio de 13 totens interativos com QR Codes, cada um direcionando para um vídeo curto de até um minuto, o público descobre que as respostas para a bioeconomia global estão também nos projetos desenvolvidos pelo espaço e por diversas instituições de pesquisa. 

A iniciativa colaborativa dá continuidade aos debates da COP30, realizada em Belém no ano passado, funcionando como uma coalizão multissetorial que traduz compromissos globais em ações práticas no território.

Organizada pelo Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil–Noruega (BRC) e pelo Instituto Peabiru, em parceria com o Museu Goeldi, a trilha foi desenhada para transformar o passeio público em uma imersão científica. Ao entrarem no parque, os visitantes recebem um folder com o mapa das 13 estações, distribuídas entre recintos de animais, lagos e pontos de flora nativa. O público infantil ganha um "passaporte" especial com desenhos para colorir e espaços para adesivos colecionáveis, entregues em cada etapa do circuito.

Recintos de animais contaram com placas informativas durante a trilha BRC. Créditos: Natália Mello

Marlúcia Martins, ecóloga e coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação do Museu Goeldi, ressalta que a experiência é uma oportunidade crucial para comunicar a ciência à sociedade e aumentar a empatia das pessoas em relação ao funcionamento da floresta. “O que poderia ser um passeio exclusivamente de lazer no parque passa a incluir o adicional de chamar a atenção para aspectos da biodiversidade e para o aproveitamento das lições aprendidas durante as pesquisas.”

Para a pesquisadora, a valorização da biodiversidade só vai acontecer a partir do conhecimento. Ao fazer uma trilha como essa, a intenção é chamar a atenção para as relações interespecíficas, para os animais, para as plantas. "Você aumenta a empatia das pessoas em relação à floresta e ao seu funcionamento. O objetivo é criar essa relação com a natureza, mostrando como ela funciona, como a vida que está ali interage, enxergando para além de simplesmente uma paisagem estática", conclui.


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Ciência de dados monitora espécies ameaçadas na floresta 

A professora dra. Ana Cristina Mendes de Oliveira, pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolve um projeto de monitoramento da dinâmica populacional de onças em Paragominas, financiado pelo Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC). Ela explica que a maturidade da iniciativa, que já acumula sete anos de coleta de dados em Paragominas, permitiu à ciência ir muito além de uma simples listagem de animais.

"Através desse projeto com armadilhas fotográficas (camera traps), nós conseguimos não só fazer o levantamento da lista de espécies que existem na área e identificar os animais ameaçados ou criticamente ameaçados, mas fomos além. Como o projeto já tem muito tempo de execução, estamos conseguindo realizar trabalhos profundos de dinâmica populacional", explica.

Com o acompanhamento contínuo desses felinos na região, a professora conta que conseguiram entender exatamente por onde as onças estão andando e quantas são. “A partir da identificação individual de cada uma, conseguimos levantar o registro de 24 indivíduos de onça utilizando aquela área.", informa.

Esse volume robusto de dados históricos serve como base essencial para formar novos pesquisadores na própria região, permitindo que estudantes de graduação investiguem recortes específicos da fauna local. Mayssy Oliveira (24 anos), graduanda em Licenciatura em Ciências Biológicas pela UFPA e aluna de Iniciação Científica (Pibic) sob orientação da professora Ana Cristina, atua diretamente no Laboratório de Ecologia e Zoologia de Vertebrados da instituição e detalha o foco do seu estudo:

"No meu trabalho de iniciação científica, nós estamos investigando a ocorrência de pequenos e médios felinos, como a jaguatirica, o gato-maracajá e o jaguarundi, utilizando esses dados consolidados que vêm da área da empresa Hydro, em Paragominas.

Buscamos entender como esses animais dividem o território e interagem entre si. Queremos descobrir, por exemplo, se a jaguatirica, por ser o maior deles e atuar como um mesopredador (um predador de médio porte), está influenciando ou inibindo a ocorrência e os hábitos dos felinos menores."


Mayssy Oliveira atua diretamente no Laboratório de Ecologia e Zoologia de Vertebrados da UFPA, estudando pequenos e médios felinos. Créditos: Natália Mello

Articulação estratégica para a conservação

Para que essa engrenagem entre grandes universidades, estudantes locais e a aplicação prática na indústria funcione, a coordenação institucional é peça-chave. Flora Bittencourt, pesquisadora do Instituto Peabiru e secretária executiva do BRC, ressalta a importância de descentralizar os recursos globais para fortalecer quem estuda a floresta de perto:

"O Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega cumpre um papel fundamental ao conectar a pesquisa acadêmica de excelência com as demandas reais de conservação no território", ressalta Flora, que é bióloga com mestrado em ecologia e doutorado em genética molecular. “Financiar esses projetos significa dar autonomia para que cientistas da região desenvolvam soluções sob medida para a Amazônia, garantindo monitoramento de longo prazo e gerando dados que fundamentam políticas públicas e práticas empresariais responsáveis", conclui.

 

Flora Bittencourt, pesquisadora do Instituto Peabiru e secretária executiva do BRC - Créditos Natália MelloFlora Bittencourt, pesquisadora do Instituto Peabiru e secretária executiva do BRC - Crédito: Natália Mello

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