Conheça oito iniciativas lideradas por mulheres na Amazônia

Texto de Laura Guido. Edição de Carla Fischer/ Revisão de Natália Mello.
08/03/2026 07:00

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O 8 de Março é marcado, no mundo inteiro, como um dia de mobilização e memória das lutas das mulheres. Reconhecida oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, a data nasceu das reivindicações por direitos trabalhistas e igualdade. Cinco décadas depois, as mulheres ainda enfrentam dificuldades para garantir direitos básicos e condições dignas de vida. Ao mesmo tempo, elas seguem na luta por equidade e oportunidades, com crescimento de sua presença em espaços profissionais, acadêmicos e de liderança. 

Para este #8M, o Amazônia Vox selecionou oito iniciativas lideradas por mulheres que atuam na e pela a Amazônia a partir de seus próprios territórios, com a produção de artesanato, meliponicultura, sistemas agroflorestais, bioeconomia com base em sementes amazônicas, como estratégia de geração de renda, de permanência na floresta e de outras formas de resistência e atuação econômica. A busca foi realizada a partir do material produzido pelo Projeto Lições da Amazônia, que, na perspectiva do Jornalismo de Soluções, tem como objetivo “jogar luz” sobre os desafios do território a partir de iniciativas locais que apresentam respostas para esses problemas. As apurações e as reportagens foram feitas por estudantes de jornalismo de diferentes estados da Amazônia. 


Amapá: Kátia Pantoja - presidente do Coletivo Mulheres do Rio Maniva 

Kátia Pantoja chegou à comunidade de São José do Rio Maniva em 2001 como professora. Com o tempo, passou a integrar mobilizações comunitárias voltadas à melhoria das condições de vida das famílias ribeirinhas. Em 2008, ajudou a fundar a Associação de Desenvolvimento Intercomunitário dos Rios Corredor, Furo do Chagas, Maniva e Cutias (ADINCOCMA) e assumiu a presidência do Coletivo Mulheres do Rio Maniva.

Sob sua liderança, mais de 100 famílias passaram a atuar na bioeconomia de sementes como andiroba, ucuúba e pracaxi, fornecendo matéria-prima para o setor de cosméticos. Quando a crise climática reduziu as safras e evidenciou a dependência da coleta, Kátia buscou parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária do Amapá (Embrapa) para implantar a extração de óleos na própria comunidade. A mudança permitiu agregar valor à produção e ampliar a autonomia das mulheres envolvidas.

Pará/Região Tapajós: Dioneia dos Santos - Agricultura Familiar

Dioneia dos Santos, 50 anos, cultiva 15 mil metros quadrados de terra às margens do Lago do Maicá, em Santarém. Agricultora familiar na comunidade de Urumanduba, convive com o avanço da soja e o uso de agrotóxicos no entorno da comunidade. Em sua roça, adota práticas agroecológicas: utiliza adubo orgânico e esterco de gado, prepara defensivos naturais com cravo, borra de café e casca de ovo e mantém o ensinamento do pai, de 80 anos, de que é possível produzir respeitando o solo e a saúde. O jambu é o principal produto e pode render até R$ 16 mil na alta temporada, abastecendo feiras de Santarém, municípios vizinhos e Parintins, no Amazonas.

Mesmo assim, ela relata impactos nas plantações e teme que resíduos das lavouras vizinhas atinjam o igarapé e os rios da região. Diante das pressões para vender a terra e das mudanças no ciclo das águas, Dioneia permanece na roça. 

Maranhão: Maria Elisangela de Souza e Cleonice Soares - Grupo Josina´s de Fibra 

No povoado Centro da Josina, em São Luís Gonzaga (MA), o Grupo Josina’s de Fibra reúne dez mulheres que transformam fibra de bananeira e coco babaçu em bolsas, sacolas, cadernos, itens de decoração, azeite e carvão. A proposta é aproveitar materiais que seriam descartados após a colheita. A iniciativa começou em 2015, com apoio da Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura, por meio do projeto Mulheres Tecendo Fibras, que ofereceu capacitações e apoio à gestão. Agricultoras familiares e quebradeiras de coco babaçu, elas cultivam banana para consumo próprio e utilizam a parte aérea da bananeira após a frutificação para extrair a fibra.

O artesanato é produzido apenas com insumos naturais, com costura manual, ornamentação com sementes e cola à base de água. Além da renda, o trabalho coletivo fortalece a organização das mulheres e a permanência no território. A produção é vendida em feiras, oficinas, instituições parceiras e por encomendas nas redes sociais. Atualmente, o grupo investe na construção de uma nova sede para ampliar o armazenamento e a produção.

Maranhão:  Ivanilce dos Santos e Terezinha de Jesus Costa - Associação das Produtoras do Povoado Timbó

Na comunidade Timbó, no município de Morros (MA), agricultoras familiares criam abelhas nativas sem ferrão da espécie tiúba. A atividade garante renda e contribui para a polinização de espécies da região. Ivanilce dos Santos, conhecida como Nicota, trabalha com meliponicultura há 18 anos e retira da atividade 80% da renda da família. Integrante da Associação das Produtoras do Povoado Timbó, criada em 2006 com apoio da Associação Agroecológica Tijupá, começou com duas caixas e hoje mantém 43 colmeias. A extração do mel ocorre entre agosto e setembro, de forma artesanal.

Terezinha de Jesus Costa também integra o grupo e mantém 12 caixas, conciliando consumo próprio e comercialização. As produtoras enfrentam desafios como queimadas, coleta ilegal de mel e alterações no regime de chuvas, que afetam as floradas. Ainda assim, seguem ampliando os meliponários e preservando os enxames da região.


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Tocantins: Lidejane Lopes - Presidente da Associação de Mulheres Agroextrativistas da Área de Produção Ambiental Cantão 

Em Caseara, a 255 quilômetros de Palmas (TO), Lidejane Lopes, 47 anos, preside a Associação de Mulheres Agroextrativistas da Área de Proteção Ambiental Cantão (AMA Cantão). Criada em uma cidade ribeirinha, cresceu acompanhando o plantio e a colheita de frutos como murici, jatobá, puçá, marmelada e pitomba.

À frente da associação, Lidejane transforma saberes em estratégia de geração de renda e conservação do Cerrado. Para as integrantes, manter o bioma preservado está diretamente ligado à segurança alimentar e à continuidade do modo de vida local. A valorização de frutos como o jatobá impulsiona a economia da comunidade.

Tocantins: Laudeci Ribeiro - Diretora Executiva da Associação Comunitária dos Artesãos e dos Pequenos Produtores de Mateiros (ACAPPM)

Em Mateiros (TO), Laudeci Ribeiro, diretora executiva da ACAPPM, coordena a produção de artesanato em capim dourado e de alimentos feitos com frutos do Cerrado. Desde 2001, organiza 85 associados na produção e na comercialização de bolsas, acessórios, doces, geleias, licores e cachaças.

A associação também desenvolve parcerias com universidades e organizações para qualificar a gestão e a precificação dos produtos. Mesmo diante de limitações de infraestrutura, o grupo mantém práticas de baixo impacto ambiental e amplia as possibilidades de renda na comunidade.

Maranhão: Saber Tradicional: Mãe Gerça (Gercina Agda Lopes)

Mãe Gerça atua no cuidado com a saúde no povoado Claridade, no município de São Luís Gonzaga, do Maranhão. O conhecimento sobre plantas medicinais foi herdado da avó e hoje orienta o trabalho que ela realiza em seu próprio quintal, onde cultiva ervas, hortaliças e árvores frutíferas sem o uso de agrotóxicos. Entre os preparos está o xarope de cupim, produzido a partir de cupins coletados em árvores frutíferas e combinado com ervas e outros ingredientes naturais, utilizado pela comunidade principalmente para aliviar sintomas de gripe e problemas respiratórios.

Em uma região onde o acesso aos serviços de saúde é limitado, moradores procuram a raizeira em busca de chás, xaropes e orientações. Além de vender o xarope a preço acessível, Gercina também doa o remédio quando necessário e compartilha o conhecimento sobre plantas medicinais. Ela acompanha gestantes e crianças da comunidade e contribui para manter vivos saberes tradicionais ligados ao cuidado com a saúde.

Tocantins: Isadora Reis e Maria Otília Barbosa (Projeto Jovens Educadores Ambientais)

A atuação das coordenadoras Isadora Reis e Maria Otília Barbosa no projeto Jovens Educadores Ambientais, criado pelo Movimento Estadual de Direitos Humanos do Tocantins (MEDH/TO), promove atividades de educação ambiental voltadas a crianças, adolescentes e jovens de Palmas. A iniciativa leva ações para escolas, espaços públicos e regiões periféricas da capital, abordando temas como justiça climática e direitos humanos. Uma das ferramentas utilizadas é a realidade virtual.

Com apoio financeiro do Instituto Clima e Sociedade (iCS), o projeto passou a utilizar óculos 3D que permitem aos participantes assistir ao filme “Amazônia Viva”, uma experiência imersiva com imagens em 360° da região do Rio Tapajós, no Pará. A proposta é aproximar os jovens das discussões sobre preservação ambiental e mudanças climáticas, estimulando reflexões sobre a realidade local e os desafios enfrentados por comunidades da Amazônia.

 

Tags:
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