A COP da implementação demanda também a inclusão racial

Texto de Laura Guido. Edição Carla Fischer. Revisão Samantha Mendes. Fotos de Maycon Nunes/ Ag. Pará, Tomaz Silva/ Ag. Brasil.
21/11/2025 09:05

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Ontem (20) foi marcado pelo Dia da Consciência Negra, feriado nacional dedicado ao combate ao racismo. Mas, enquanto a atenção global se voltava para a Blue Zone, onde chefes de Estado e negociadores seguiam concentrados na reta final das discussões climáticas, foi nas periferias de Belém que o debate sobre clima, combate ao racismo e soluções comunitárias ganhou força. As chamadas Yellow Zones, mobilizadas por coletivos e lideranças locais, se consolidam como espaços de referência para discutir o que significa implementar justiça climática em um país atravessado por desigualdades estruturais.

A Coalizão COP das Baixadas é um movimento articulado por lideranças das periferias de Belém. Ruth Ferreira, cofundadora da coalizão, defende que “não existe negociação climática sem enfrentar o racismo”. Para ela, a criação das Yellow Zones é uma forma de garantir que populações negras, periféricas e ribeirinhas, historicamente excluídas dos espaços de tomada de decisão, possam não apenas participar, mas propor soluções para seus próprios territórios. 

Ruth explica que a COP das Baixadas nasceu para tensionar a distância entre a agenda climática global e a vida cotidiana de quem já sente, na pele, os impactos da crise ambiental. “Esses espaços não são paralelos: são essenciais. Porque a construção climática passa pela escuta dos territórios”, afirma. A iniciativa surgiu antes do anúncio da Conferência das Partes em Belém e foi potencializada pelas movimentações em torno do evento na Amazônia, impulsionada pela preocupação com uma participação popular efetiva no centro da discussão. 

É nesse contexto que o espaço Eco Amazônias, no bairro do Jurunas, periferia de Belém, tornou-se ponto de encontro ontem, 20. A atriz e cineasta Joyce Cursino, fundadora da Negritar Filmes e Produções, abriu as portas do espaço comunitário para receber uma roda de conversa, vivências e intercâmbios. Joyce atua, há anos, na intersecção entre comunicação, cultura, agroecologia e ativismo climático.

“Nós já estávamos debatendo e construindo soluções antes da COP chegar aqui”, afirma. Ela explica que as Yellow Zones são uma rede de territórios que já realizam trabalho de base, mas que agora ganham visibilidade e reconhecimento: “A Blue Zone vai embora, a Green Zone vai embora. Mas quem fica somos nós, que somos da comunidade. O pós-COP é aqui no território.”

No espaço comunitário Eco Amazônias, a horta comunitária, a permacultura e a bioconstrução com tijolos ecológicos se articulam com encontros de ribeirinhos, quilombolas e moradores de periferias de várias ilhas e municípios da região. O projeto, que também promove ciclos de formação sobre racismo ambiental para mulheres negras, fortalece saberes tradicionais que costumam ser apagados das zonas oficiais da conferência. “Nas zonas oficiais ninguém para pra ouvir as parteiras, as erveiras, as curandeiras, mas elas são quem sabe manejar a floresta, a cura, as plantas”, lembra Joyce.

A mobilização comunitária também envolve parcerias, como a Escola Viva em Movimento, que introduz técnicas de bioconstrução com ecotijolos e educação ambiental. “A gente precisa criar soluções para os resíduos, e não seguir jogando tudo nos lixões”, disse Joyce.

No espaço, como parte da programação do Dia da Consciência Negra, a proposta era que a juventude conduzisse o debate. Para Eduardo Soares, fundador do coletivo Ubuntu Ambiental, ocupar uma Yellow Zone significa romper barreiras históricas de exclusão. “A COP é um espaço exclusivo, não inclusivo. Para entrar na Blue Zone precisa de passaporte. Isso já exclui juventudes que não possuem esses documentos”, critica.

As Yellow Zones, diz ele, fazem o caminho inverso: “Elas abrem as portas para que a gente possa conversar, aprender, propor ações. As soluções para a crise climática já estão no próprio território”, complementa.

A roda de conversa “Juventudes, Territórios e Clima” conectou jovens e teve como objetivo mapear realidades distintas, identificar pontos em comum e aprofundar os debates sobre a crise climática a partir da Amazônia. Para Eduardo, representante do movimento, realizar esse debate no Dia da Consciência Negra é simbólico: “O racismo estrutural sempre excluiu a gente desses espaços”, conclui.

As programações do Dia da Consciência Negra aconteceram em diversos espaços culturais de Belém, fortalecendo ações voltadas à memória e às discussões sobre justiça racial. As atividades realizadas nas Yellow Zones se somaram a essa mobilização mais ampla, que ocupou centros culturais, praças, instituições educativas e iniciativas comunitárias por toda a cidade.

 

A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.

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