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Após mais de um mês navegando pelo rio Amazonas e seus afluentes, o líder indígena Leo Cerda chegou a Belém a bordo da frota amazônica Yaku Mama. Junto com outros 60 representantes de diversos povos e nacionalidades indígenas, Cerda atravessou a Amazônia do Equador, Peru e Colômbia de barco para levar essas vozes à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).
Esta não é a primeira vez que o representante indígena kichwa, da Amazônia equatoriana, participa de uma COP. Nos últimos 10 anos, ele participou dessas conferências, onde admite que a presença dos povos aumentou, mas destaca que o problema mais grave é o fato de ainda não fazerem parte das mesas de negociação.
Nesta COP30, Cerda compartilhou a experiência de sua comunidade, Serena, localizada na província de Napo, uma área atualmente ameaçada pela mineração. Lá, essa atividade ocupa mais de 1.300 hectares, de acordo com dados do MapBiomas Ecuador.
O líder indígena de 37 anos também participou de vários eventos nos quais debateu a importância de uma transição energética justa, que não volte a colocar em risco territórios já afetados pela economia fóssil.
P: Como começou sua luta pela defesa do território?
R: Como indígenas, não temos outra opção a não ser proteger os territórios e os direitos dos povos, que têm sido ameaçados pela estrutura dos países como um legado do colonialismo. Para mim, a defesa do território consiste em proteger nosso território das ameaças extrativistas, pois elas estão contaminando nossas águas e violando diretamente a vida e a cultura de nossas comunidades.
P: Qual é a principal ameaça que afeta sua comunidade atualmente?
R: A principal ameaça para minha comunidade, localizada na província de Napo, na Amazônia central do Equador, é o desenvolvimento da mineração. O Estado equatoriano tem concedido licenças para extrair ouro de nossos territórios sem o consentimento prévio, livre e informado. A mineração não promove o desenvolvimento comunitário. Agora, a água já está contaminada com mercúrio e outros metais pesados, que afetam diretamente a saúde das comunidades que vivem nas margens dos rios Jatunyaku, Napo e até mesmo do Amazonas. Sem água, não podemos viver.
P: Com base na sua experiência, quais são as reivindicações que trouxeram para esta COP?
R: Uma das primeiras demandas é que seja garantido o direito à consulta prévia, livre e informada. Também queremos que seja garantida a vida dos defensores e defensoras que atuam na proteção dos territórios, que seja garantido o financiamento pleno e efetivo, assim como mecanismos e canais de acesso direto ao financiamento para a adaptação dos territórios à crise climática. Já estamos vivendo essa crise climática e precisamos de acesso direto a esses fundos. Outra das demandas é que seja respeitado o direito à vida dos povos em isolamento voluntário.
P: Como tem sido a participação indígena nesta COP?
R: A participação indígena realmente não tem sido percebida. Quantas pessoas realmente estão nas mesas de negociação? Temos mais representantes das indústrias fósseis do que representantes indígenas que participam plena e efetivamente nas negociações. Estima-se que haja 1.600 representantes do lobby fóssil, enquanto os indígenas seriam 900. Para nós, uma das principais demandas é que os povos indígenas tenham voz e voto nas decisões tomadas nesta cúpula, já que os acordos que são feitos aqui sobre políticas públicas ambientais afetam diretamente nossos territórios.
P: Ao exigir uma transição energética justa, a que se referem?
R: Falamos em não replicar o mesmo modelo de violação dos direitos dos povos indígenas. Uma transição justa não pode ocorrer sem respeitar os direitos, sem garantias e sem as vozes dos povos indígenas. Precisamos de uma transição que não volte a violentar os mesmos territórios que já foram desprotegidos e explorados de forma desproporcional pelas indústrias fósseis. Temos que falar de uma transição que vá além da expansão dos combustíveis fósseis. Estamos pedindo que a matriz energética seja transformada sem desmantelar ecossistemas como a Amazônia, que são ecossistemas frágeis.
P: Como a iniciativa da frota se relaciona com o contexto da COP30?
R: Para nós, é muito importante a participação dos movimentos sociais e dos povos e nacionalidades indígenas na mesa de negociações da COP30. Por isso, levamos essas vozes. Saímos do Equador, passamos pelo Peru, Colômbia até chegarmos à Amazônia brasileira, sempre observando as realidades dos territórios. Muitas vezes, as políticas que são feitas nessas negociações não levam em conta a realidade. Ou seja, não levam em conta os impactos e as soluções que nós, como povos indígenas, trazemos para esses espaços.
A Amazônia é um ecossistema tão frágil que está sendo vulnerado pela expansão da fronteira petrolífera, pela expansão da fronteira mineradora, pelos resíduos de mercúrio, pelo desmatamento, etc. São coisas que estão acontecendo em todo o território e é muito importante ver como nós, como povos indígenas, estamos apoiando com soluções eficazes: promovemos o monitoramento florestal, as guardas e brigadas indígenas contra incêndios, o manejo tradicional de nossos territórios. Sem os povos indígenas, não haveria territórios protegidos que são necessários para a vida e a saúde do planeta.
A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.
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