Mulheres amazônidas reivindicam espaço nos debates contra a crise climática

Cecília Amorim | Agência Carta Amazônia. Edição Carla Fischer | Amazônia Vox Shirley Baré e Bruna Araujo
26/09/2025 17:00

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A COP30 está chegando. Belém tem se preparado para a Conferência do Clima com obras que mudam a paisagem urbana e discursos que ecoam compromissos globais contra a crise climática. O espaço será palco de grandes negociações diplomáticas, que visam estabelecer metas de redução de carbono e planos para frear o aquecimento global do planeta. Enquanto isso, mulheres indígenas, quilombolas e periféricas travam uma batalha dupla: contra a crise climática, que já afeta seus cotidianos, e pela inclusão genuína em espaços de poder que historicamente as silenciaram.

Apesar de serem as mais impactadas pela crise climática e estarem na linha de frente das ações de cuidado com o território, as mulheres ainda são minoria nos espaços de decisão globais. Dados do Painel de Gênero da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) mostram que a presença feminina nas delegações nacionais nas Conferências do Clima segue desigual: em média, apenas 30% a 35% dos representantes são mulheres. O avanço rumo à paridade de gênero tem sido lento. Entre 2008 e 2019, o número de mulheres como chefes de delegação subiu de 12% para 27%. Já em 2022, na COP27, esse percentual chegou a 34% - um crescimento, mas ainda distante do equilíbrio.

Essa desigualdade também se reflete nas posições de maior liderança. Em 28 edições das COPs, apenas cinco mulheres chegaram à presidência do evento. Enquanto países nórdicos e da União Europeia apresentam delegações mais próximas da paridade, outras nações ainda mantêm uma participação majoritariamente masculina. O contraste mostra como a representatividade das mulheres nos processos de decisão climática ainda é um desafio, mesmo sendo elas as que carregam de forma desproporcional os impactos da crise ambiental em suas comunidades. 

São elas que, vivendo nas aldeias, nos quilombos, nas beiras dos rios e nas periferias urbanas, sentem primeiro - e mais duramente - os impactos da crise climática: calor extremo, chuvas destrutivas, ameaça à segurança alimentar. Elas chegam à conferência não como simples espectadoras, mas como portadoras de saberes ancestrais e soluções práticas, desafiando um sistema machista. Sua luta revela o paradoxo central deste encontro global: como discutir o futuro da Amazônia sem ouvir aquelas que sempre a mantiveram de pé?

Marinette Tucano fala sobre ecofeminismo, ancestralidade e resistência

Em Belém, a contagem regressiva para a COP30 já trouxe mudanças na rotina da cidade que se tornou um canteiro de obras. Mas, por trás das grandes negociações diplomáticas e das metas globais, estão as vozes das mulheres da Amazônia que carregam a urgência de serem ouvidas nas decisões que impactam suas vidas. Entre elas, Marinete Tukano, liderança indígena, coordenadora da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), coloca em palavras o que significa ser mulher e amazônida em um tempo de colapso climático.

“Nós, mulheres, carregamos no corpo o território. Nossa luta é pela vida, pela floresta e pela nossa existência enquanto povos”, resume Tukano. Para ela, a ideia que conecta a natureza à figura feminina vai além da metáfora: está na prática de cultivar a roça, pescar, proteger o rio, gerar e cuidar da vida.

Para a liderança indígena, a COP é um espaço de visibilidade, mas também de exclusão. Ela recorda as barreiras que as mulheres indígenas enfrentam para participar: passaportes caros e burocráticos, dificuldades de credenciamento, o peso financeiro das longas viagens e a falta de estrutura para mães que precisam deixar seus filhos aos cuidados de terceiros.

“Quando a gente consegue chegar nesses espaços, já foi uma batalha imensa. Muitas desistem porque não têm como bancar essa logística. E isso limita quem pode falar em nome da Amazônia”, explica. A organização está se preparando para levar nove mulheres a Belém. Os altos custos de deslocamento na Amazônia são um dos principais gargalos para uma participação maior no evento.

A UMIAB, que coordena mulheres de diferentes povos amazônicos, vem se organizando para garantir que as indígenas estejam na COP30. Para Tukano, a presença feminina é vital, porque as mulheres são as primeiras a sentir os impactos das mudanças climáticas em suas comunidades.

A liderança explica que as mudanças climáticas não são mais uma ideia distante, são vividas no dia a dia, nos rios que estão secando, nos peixes que estão diminuindo, na agricultura que sofre com estiagens ou enchentes extremas. “A segurança alimentar das comunidades está em risco. O que antes era fartura, hoje é incerteza. Isso causa adoecimento físico e também mental”, relata.

As mulheres, que tradicionalmente são responsáveis pela alimentação e pela saúde das famílias, sentem primeiro as consequências. Muitas recorrem à venda de artesanato nas cidades como estratégia de sobrevivência, mas enfrentam racismo, falta de políticas públicas e invisibilidade. “Há mulheres indígenas morando nas periferias de Belém que são esquecidas. Elas existem, resistem e também são Amazônia”, afirma a líder indígena.

Um dos pontos que a liderança pontua é sobre a pluralidade amazônica. “A Amazônia não é só floresta. É rio, mar, cidade, periferia, quilombo, aldeias. É afrodescendente e também indígena”, pontua. Essa visão amplia o debate sobre clima, mostrando que o território amazônico é feito de diversidade de modos de vida, todos ameaçados pela crise ambiental e pelo avanço de projetos extrativistas. Por isso, os debates precisam considerar essa pluralidade.

A preparação para a COP30, que reunirá milhares de pessoas em Belém, expõe tanto os contrastes urbanos quanto os desafios de quem vem das comunidades. Para Marinette, a conferência só terá sentido se abrir espaço real para essas vozes: “Não basta usar a Amazônia como vitrine. É preciso escutar quem vive aqui, principalmente as mulheres, que já estão na linha de frente da crise climática”.

“Não há justiça climática sem as mulheres quilombolas”: protagonismo ancestral na COP30 


Carlene Pristes, coordenadora de diversidade de gênero da MALUNGO/PA - Foto: Bruna Araujo

Enquanto o mundo discute metas e acordos para frear a emergência climática, um grupo de mulheres quilombolas de diferentes regiões do Pará se articula para que suas vozes, corpos e vivências estejam presentes na trigésima Conferência do Clima. A participação das mulheres na COP30 está sendo organizada em parceria com diversos movimentos sociais, com o objetivo de levar para um espaço de discussão global o conhecimento ancestral de quem vive e protege a floresta.

A estratégia passa pela criação de um estande coletivo, que funcionará como um ponto de convergência e diálogo. Nesse espaço, elas realizarão sessões colaborativas sobre gênero, direitos das mulheres, participação política, social e econômica, sempre entrelaçando esses temas com as pautas específicas dos povos quilombolas.

“O objetivo é garantir visibilidade e fortalecer a voz das mulheres quilombolas, colocando nossas experiências e lutas no centro das discussões sobre justiça climática e direitos humanos”, explica Carlene Pristes, coordenadora de gênero da Malungo, Coordenação das Associações Quilombolas do Pará, organização que representa e defende os direitos de mais de 600 comunidades no estado.

A iniciativa não é simbólica; é estratégica. Para Pristes, a presença dessas mulheres em espaços de decisão climática é fundamental, pois elas são detentoras de soluções e práticas ancestrais para enfrentar a crise.

“Somos diretamente impactadas pela crise climática, mas, ao mesmo tempo, somos guardiãs de práticas ancestrais de cuidado com o território e com a vida do nosso povo. Nossos quilombos vivem na Amazônia, cuidam da floresta, dos rios e da terra, e as mulheres têm um papel central nesse processo, tanto no trabalho coletivo quanto na preservação dos saberes”, afirma.

A articulação pretende levar uma comitiva de cem mulheres quilombolas à COP30. O corpo dessas mulheres carrega a mensagem política de que a luta pela preservação do planeta é indissociável da luta por justiça social, direitos humanos e igualdade de gênero.

“Quando as mulheres quilombolas ocupam esses espaços, não estamos falando só da defesa do meio ambiente, mas também de justiça social, de direitos humanos e de reconhecimento do nosso protagonismo político”, ressalta Pristes. “Estar na COP significa dizer que a luta contra as mudanças climáticas precisa considerar as vozes de quem está na linha de frente, de quem sente os efeitos no cotidiano, e tem  propostas reais para cuidar da terra de forma sustentável e justa.”

 

 

A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.

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#mulheresnacop #cop30 #soluçõesancestrais

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