Reportagem de Ana Duzanowski.
Edição e Revisão de texto por Carla Fischer e Luciene Kaxinawá.
Coordenação de produção por Luciene Kaxinawá.
Imagens de PR e produção de Caio Kay (produtora casaquatro).
Revisão audiovisual de Anna Suav.
Edição final audiovisual de Márcio Nagano.
Este conteúdo integra a série Destino Amazônia, realizada pelo Amazônia Vox
com apoio do Sicredi
e do Sebrae.
Publicado em 28/07/2026 09:00
A cerca de 130 quilômetros de Porto Velho, capital de Rondônia, na margem esquerda do Rio Madeira, o maior afluente do rio Amazonas, fica uma das paisagens mais particulares de toda a região: o Lago do Cuniã, formado pelas águas do próprio Rio Madeira, que reflete o céu e é cercado por igarapés, igapós e castanheiras centenárias. Sua paisagem muda duas vezes por ano, acompanhando o ciclo de cheias e vazantes do rio.
Foto: Paulo Ronaldo.
Entre os meses mais chuvosos, as águas avançam sobre a floresta alagável e enchem o lago até seus limites máximos. Na vazante, recuam, revelam praias e bancos de areia e reduzem a profundidade de trechos inteiros, que voltam a ficar submersos apenas no ciclo seguinte. Esse movimento, repetido há milhares de anos, molda não apenas a paisagem, mas também o calendário da comunidade local: determina os períodos de pesca mais fartos, as melhores épocas para determinadas atividades extrativistas e as janelas em que certos passeios turísticos podem - ou não - acontecer.
O lago provavelmente se formou quando o Rio Madeira abandonou esse braço, criando um meandro abandonado*. Pode ter sido um terremoto, pode ter sido o assoreamento do rio, areias que se acumularam e fizeram o curso mudar. “Você tem ali o surgimento de um lago, e vários animais acabaram colonizando aquele ambiente, porque o lago mantém ligação com o próprio rio”, explica o biólogo Flávio Aparecido Terassini, que pesquisa a Amazônia desde 1999. “Nós temos muitos peixes, espécies nativas, e nós temos também muitos répteis, como os crocodilianos.”
Foto: Paulo Ronaldo.
Foto: Paulo Ronaldo.
A área é hoje protegida como Reserva Extrativista Federal, categoria de unidade de conservação criada em 1999, que ocupa quase 75 mil hectares e reúne quatro núcleos comunitários: Pupunha, Neves, Silva Lopes e Araçá. Diferentemente de outras categorias de proteção ambiental, que costumam restringir ou proibir a presença humana permanente, a Resex parte do princípio oposto: reconhece que as populações tradicionais que já vivem há gerações nesse território são parte da própria estratégia de conservação, e não uma ameaça a ela.
A gestão da reserva é dividida entre duas frentes. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) responde pela parte técnica, incluindo a autorização de visitação e o manejo ambiental. O dia a dia da comunidade, incluindo as questões do turismo, fica sob responsabilidade da Associação Geral dos Moradores do Lago do Cuniã (ASMOCUN), que completa 40 anos em 2025 e é a mais antiga associação de moradores em atividade no Baixo Madeira. Hoje, reúne mais de 150 sócios, cerca de metade deles envolvidos direta ou indiretamente na atividade turística.
Esse modelo de conservação faz a diferença na história do Cuniã, como explica o professor Gustavo Gurgel do Amaral, do curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), que estuda a formação das comunidades ribeirinhas da bacia do Rio Madeira.
“O que nós temos hoje da história do Cuniã de mais curioso é justamente essa luta para se transformar uma unidade de conservação, quando poderia prevalecer essa ideia de que as unidades de conservação teriam que tirar as pessoas de lá. Nas Resex, é o contrário: as pessoas daqui vão continuar nos seus locais, realizando suas atividades tradicionais, vivendo em harmonia com a natureza de forma e de forma sustentável, porém tendo recursos econômicos, tendo condições de ter as suas necessidades supridas por essas atividades econômicas”, explica o pesquisador.
A população que hoje ocupa os quatro núcleos do Cuniã tem raízes que remontam, ela também, ao ciclo da borracha. Segundo o mesmo pesquisador, a ocupação ribeirinha ao longo do Rio Madeira segue um padrão comum a diversas outras regiões da bacia amazônica: famílias atraídas pela demanda do látex no século XIX, muitas delas nordestinas, que se fixaram às margens do rio e, com o tempo, desenvolveram um modo de vida próprio, baseado na pesca, na coleta de açaí e de castanha e num profundo conhecimento do ciclo das águas.
Hoje, quase um século e meio depois da chegada dessas primeiras famílias, o Cuniã vive um novo capítulo de sua história: o de aprender a dividir esse território, sem perdê-lo, com quem chega de fora e depois parte. É a partir das pessoas que vivem essa transição, dia após dia, que esta reportagem segue.
A porta de entrada: Porto Velho
Para chegar a esse lugar, o caminho passa antes por Porto Velho, capital de Rondônia e a mais extensa capital brasileira em área territorial, com pouco mais de 34 mil quilômetros quadrados, uma área próxima à de países inteiros como a Bélgica. Vivem ali cerca de 549 mil pessoas, quase um terço de toda a população do estado.
Diferentemente de cidades brasileiras fundadas ainda no período colonial, Porto Velho tem data de nascimento precisa: 4 de julho de 1907, quando a companhia americana Madeira Mamoré Railway Company escolheu aquele ponto às margens do Rio Madeira como base para iniciar a construção de uma ferrovia. A vila cresceu ao redor do canteiro de obras e, décadas depois, se tornaria capital do estado.
Mas Porto Velho não é só a cidade que se vê do centro. É também sede de um território rural imenso, onde a floresta amazônica e os rios formam um mosaico de comunidades tradicionais, muitas delas dentro de unidades de conservação. Uma dessas comunidades fica no distrito de Nazaré, na zona rural do município, criado ainda em 1916, quando um comerciante português se instalou na região para explorar a extração de látex.
É esse distrito e essa história que abrigam o destino desta reportagem: a Reserva Extrativista do Lago do Cuniã.
Quando se trata de Amazônia, o caminho sempre é parte do destino
Chegar ao Cuniã não é rápido, mas também não é a travessia de um dia inteiro que outras reservas amazônicas exigem. Saindo de Porto Velho, o trajeto soma cerca de duas horas, mas embaralha três formas diferentes de se locomover, como se a viagem fosse, ela mesma, um resumo de como se vive na Amazônia: um pouco de estrada, um pouco de rio e a paciência de quem sabe que o caminho nem sempre será em linha reta - e ainda bem.
O primeiro trecho é por terra, pela Estrada da Penal, até um ponto conhecido como Boca do Jamari, onde o asfalto (ou o que resta dele) encontra a água. Dali em diante, quem segue viagem troca o carro pela voadeira, embarcação rápida e estreita que é o meio de transporte mais comum entre as comunidades ribeirinhas de Rondônia, até a localidade de São Carlos, no Baixo Madeira. De São Carlos, o caminho ainda intercala mais um trecho de carro com uma nova travessia de barco, até alcançar o Lago do Cuniã.
É uma logística que exige planejamento. A visitação da reserva é controlada diretamente pelo ICMBio, que responde pela gestão técnica da unidade de conservação, e depende de autorização solicitada com antecedência. Há, porém, uma única exceção: durante o Festejo de Nossa Senhora Auxiliadora, tradição religiosa que reúne a comunidade todos os anos em maio, a reserva abre suas portas sem exigir liberação prévia, na única época do ano em que o Cuniã recebe visitantes por conta própria, sem intermediação burocrática.
Para quem faz esse caminho pela primeira vez, São Carlos é mais que um ponto de passagem. Foi lá, em 2007, que Maria Vanete Rodrigues Leite, hoje moradora do núcleo Neves há quase duas décadas, deu os últimos passos antes de conhecer o lugar que se tornaria sua casa. Antes disso, vinha de Vista Alegre, comunidade à beira do Rio Madeira, quase de frente para Boa Vitória. A chegada ao Cuniã não foi planejada como mudança definitiva. Foi consequência de um campeonato de futebol disputado entre comunidades ribeirinhas, durante o qual conheceu o homem que se tornaria seu marido, Nazareno de Souza, da família Souza.
“Quando eu cheguei aqui no Cuniã, em 2007, meu cunhado e meu esposo não plantavam roça. Eu fui e falei para o meu esposo: vamos plantar roça, porque eu sei fazer farinha, eu sei lidar com roça”, lembra Nete, como é mais conhecida. “Essa é a experiência que eu trouxe da beira do Rio Madeira.”
Não havia energia elétrica quando ela chegou, e a única via de acesso interno era um caminho feito a pé ou de bicicleta. Levaria ainda alguns anos para que a comunidade recebesse eletricidade, mudança que Nete descreve como uma vitória coletiva, além de mais seis anos morando na casa da cunhada até que ela e o marido construíssem a própria casa. Hoje já são doze anos vivendo ali, num quintal que, segundo ela, guarda a vista mais valiosa que possui: três castanheiras grandes, plantadas dentro dos limites que a reserva permite.
“O Cuniã é uma terra abençoada por Deus, porque tudo tem. Tudo que tem na minha casa é riqueza. Muitas pessoas nos estados por aí querem comer uma castanha, tomar um açaí, uma macaúba, e não têm. E aqui, no nosso Cuniã tem com fartura e abundância”, resume.
É esse mesmo caminho, entre estrada e água, que hoje um número crescente de visitantes começa a percorrer, não mais em busca de uma nova vida, mas de alguns dias dentro de uma que já existe há gerações. E é chegando aos quatro núcleos que compõem a reserva que essa vida se revela em suas diferenças internas. Porque, apesar de tudo se chamar Cuniã, o lago funciona, na prática, como uma cidade dividida em bairros.
Quatro núcleos, um só lago
Pupunha, Silva Lopes Araújo, Neves e Araçá. Os nomes soam como bairros porque, na prática, funcionam como bairros: cada núcleo tem famílias de referência, pousadas próprias, atividades específicas de turismo e a distância entre eles não se mede em quilômetros, mas em minutos de voadeira.
Pupunha é o primeiro núcleo de acesso, para quem vem de São Carlos, e funciona como ponto de embarque para os demais. Reúne famílias como Quadros, Souza, Machado e Amorim, e é o único núcleo, junto com Araçá, conhecido pelo nome do lugar - inspirado no fruto amazônico -, e não pelo nome de uma família específica. Tem três trilhas próprias, todas voltadas ao extrativismo.
Foto: Paulo Ronaldo.
Silva Lopes Araújo é o núcleo central, onde ficam a sede da associação e a maior concentração de infraestrutura: três restaurantes e pousadas a poucos minutos de caminhada uns dos outros. É também onde vivem as famílias Silva Lopes Araújo e Barros da Silva, entre elas Sheila Barros da Silva, que administra a Pousada Cajuassu, batizada em homenagem a duas árvores de caju nativo que crescem juntas em seu terreno, uma combinação rara que acabou dando nome ao lugar.
Neves, a uma travessia de barco do núcleo central, tem pousadas e restaurantes próprios e é onde mora Maria Vanete Rodrigues Leite, cujo quintal de castanheiras já apareceu nesta reportagem. Araçá é o mais distante, acessível somente de barco, mesmo durante a seca, cerca de 40 minutos do núcleo central. É também o núcleo com a história mais antiga registrada de viva voz: a matriarca do lugar, conhecida como Silmaí, é referência para boa parte das famílias que hoje vivem ali.
Onde dormir: a história da Pousada Cajuassu
Foto: Paulo Ronaldo.
A reserva conta hoje com seis pousadas e quatro restaurantes capacitados para receber turistas, distribuídos de forma desigual entre os núcleos: mais concentrados em Silva Lopes Araújo, o núcleo central, e mais espaçados nos demais, onde o deslocamento entre uma hospedagem e outra já exige uma nova travessia de barco.
Uma das pousadas mais conhecidas é a Cajuassu, administrada por Sheila Barros da Silva no núcleo Silva Lopes Araújo. O nome não é aleatório: vem de duas árvores de caju nativo, conhecido localmente de caju-açu, que crescem lado a lado no terreno da pousada, uma combinação rara o bastante para virar a identidade do lugar.
Sheila não nasceu no Cuniã. Nasceu em Porto Velho, e passou a infância em Cajazeiras, comunidade próxima de Ariquemes, onde diz ter desenvolvido o apego à natureza que carrega até hoje. Morou também na cidade, até os 21 anos, antes de se mudar para a casa do avô em São Carlos, no Baixo Madeira. Foi lá que ouviu falar, pela primeira vez, de um lugar chamado Cuniã.
“Alguém me disse que tinha um lugar chamado Cuniã, e aí começaram a contar como era. Fiquei mais curiosa ainda para conhecer”, lembra Sheila.
A curiosidade a levou até lá, e foi ali que conheceu o homem que se tornaria seu marido, um morador da própria comunidade. Ficou. Já são 30 anos morando na reserva, boa parte deles à frente da pousada que hoje leva o nome das duas árvores raras do quintal.
Na cozinha, o jacaré também
tem lugar (quando pode)
Depois de escolher onde dormir, a experiência do Cuniã passa, inevitavelmente, pela mesa. E se o jacaré é o símbolo do turismo na reserva, é também, historicamente, parte da culinária local, embora, em julho, esteja temporariamente fora do cardápio por causa da temporada de manejo.
O cozinheiro mais conhecido da região é Jorge Ferreira Lopes, dono de um pequeno restaurante que leva seu nome. A trajetória dele até a cozinha não teve nada de linear: passou 23 anos como balconista de farmácia em Porto Velho antes de voltar a morar na comunidade onde nasceu, em 1995.
“Eu costumo dizer que renasci das cinzas”, resume Jorge sobre essa virada de vida, da farmácia urbana de volta à cozinha ribeirinha.
Autodidata, ele criou o prato que hoje é a assinatura de seu restaurante quase por acaso. A receita nasceu de uma sobra: sua esposa havia descascado três tucumãs para a merenda da família, e ao preparar um jacaré para uma refeição comum, Jorge percebeu que faltava algo ao prato.
“Quando preparei o jacaré, eu olhei, olhei, mas estava faltando algo. Eu vi os tucumãs ali. Eu criei o prato que hoje é famoso, que é o jacaré no molho de tucumã”, conta.
A receita o levou, anos depois, a representar a culinária amazônica em uma feira de gastronomia em Campinas (SP), ao lado de jurados de reality shows culinários nacionalmente conhecidos, na época em que o ICMBio buscava divulgar o consumo de carne de jacaré como forma de dar vazão à superpopulação do animal na reserva.
Hoje, esse prato específico está fora do cardápio. O único frigorífico de manejo de jacaré-açu em vida livre da América Latina, instalado dentro da própria reserva, está parado desde 2023, com retomada prevista para 2026. Enquanto isso, a culinária local se apoia em outros pratos: peixe assado, peixe frito e pirarucu, sempre acompanhados de molhos preparados com tucumã ou tucupi.
A lógica de quem come no Cuniã também segue o mesmo princípio de distribuição que rege as pousadas: o café da manhã fica incluído na hospedagem, mas almoço e jantar acontecem em restaurantes diferentes, sempre de famílias diferentes, como parte do sistema de rotatividade que garante que a renda gerada pelo turismo não se concentre nas mãos de poucos.
“Turismo não é uma riqueza. É um complemento da renda da família”, pondera Jorge, um dos primeiros moradores a apostar no setor, ainda antes de ele se estruturar formalmente. “E dentro desse complemento da renda, a gente tem que ter muito cuidado.”
Antes de ser trilha era caminho
Ao todo, sete trilhas já foram identificadas dentro da reserva, quatro delas com localização confirmada. Praticamente todas nasceram do mesmo jeito: como caminhos de trabalho, abertos por moradores que precisavam chegar à roça, aos castanhais, ao açaí ou à copaíba, muito antes de qualquer visitante pensar em caminhar por ali.
No núcleo Pupunha ficam três delas, batizadas com nomes que remetem diretamente ao que se colhe ao longo do caminho: a Trilha do Andirobal, que leva o nome da árvore andiroba; a Trilha do Piquiá, batizada em homenagem ao fruto de mesmo nome; e a Trilha dos Cabo Verde. Todas seguem sendo, hoje, trilhas de uso extrativista, e não turístico.
A exceção é a Trilha das Centenárias, no núcleo Araçá, a única formalmente convertida em atrativo para visitantes. Tem cerca de 1,5 quilômetro de extensão e reúne, ao longo do percurso, uma seringueira, uma copaibeira e uma castanheira centenárias.
Quem conduz os grupos por ali é Radulan Felipe Gonçalves, morador do núcleo desde criança e integrante de uma das famílias fundadoras de Araçá.
“Com meus tios, com meu pai, meus avós”, responde Radulan, quando perguntado sobre quem o ensinou a reconhecer o tempo certo de colher, de plantar e de deixar a terra descansar. “É algo que vem de muito tempo já.”
A lógica por trás da trilha, explica ele, é a mesma que rege há gerações o manejo da terra na reserva: nada ali é definitivo, tudo segue ciclos. O trecho que hoje leva turistas até as árvores centenárias já foi caminho de roça, usado para plantar e colher mandioca, até deixar de ser cultivado, cerca de dez anos atrás, tempo suficiente para a mata se recompor.
“A gente precisa dela desmatada durante três anos. Aí, depois desses três anos, a gente deixa ela renovar de novo, a floresta. Aí vai em torno de cinco, seis anos, para a gente poder desmatar de novo”, explica Radulan sobre o sistema de rotação que a comunidade pratica, hoje reaproveitado também para explicar aos visitantes como funciona o manejo tradicional da terra.
É um detalhe que costuma surpreender quem chega de fora: a mata que parece intocada, na verdade, guarda camadas de uso e descanso pensadas com cuidado. Quando um visitante pergunta se aquele pedaço de trilha já foi desmatado, Radulan explica que sim, mas em ciclos, nunca de forma definitiva nem avançando sobre o que a comunidade chama de “mata-mata”, a floresta que nunca foi tocada.
As outras três trilhas mapeadas (do Palhalzinho, do Socó e da Cachoeirinha) ainda têm nome e localização exata a serem confirmados junto às equipes locais, um lembrete de que o próprio mapeamento do turismo no Cuniã é, ainda hoje, um trabalho em andamento.
Tem mais jacaré que gente
Se existe um fio que costura toda a experiência turística do Cuniã, ele nada. A reserva abriga uma população estimada em mais de 35 mil jacarés-açu, a maior espécie de jacaré do mundo, uma concentração que torna a observação desses animais o atrativo mais procurado por quem visita a região.
A explicação para essa concentração é biológica, e tem a ver com a ausência de um inimigo natural. “Como você tem abundância de alimento nesse lago, o jacaré vai se adaptar muito bem se não tiver um predador natural, como uma onça comendo filhotes, uma sucuri, um gavião. Eles encontraram um ambiente propenso: alimento com fartura, ausência de predador”, explica Terassini. “Se não fizer o controle dessa população, no futuro a gente pode enfrentar um problema com as espécies nativas do local.”
Existem dois passeios distintos voltados a isso. A focagem noturna leva os visitantes de voadeira pelos igapós e igarapés do lago, com o guia conduzindo um foco de luz sobre a água para localizar os animais, entre julho e outubro, período da seca, quando os jacarés se concentram mais. Leonardo Alan de Oliveira Barros, guia e diretor de marketing do turismo da reserva, tornou-se conhecido justamente por essa proximidade com o animal: de tanto ser chamado de Jacaré pelo público das redes sociais, onde documenta o cotidiano da reserva desde a adolescência, adotou o apelido como nome profissional.
Já a observação diurna acontece principalmente entre agosto e setembro, quando a concentração de jacarés no Igarapé do Campo atinge o pico do ano.
A mesma época favorece outro passeio: a observação de aves, com saídas ao amanhecer pelo Igarapé do Campo e pelos igapós da reserva. Entre as espécies mais registradas estão o biguá, também chamado de mergulhão, a garça-branca e o maguari, uma ave de pescoço longo comum às margens do lago durante a temporada da chamada revoada dos biguás, entre julho e outubro.
Completam o roteiro de passeios a visita ao Jardim das Centenárias, espaço aberto ao longo da trilha de mesmo nome que expõe as raízes e a base das árvores centenárias, cercado por açaizais e outras plantas frutíferas, e a visita ao quintal de Maria Vanete, em Neves, onde a horta integrada à floresta e a vista para as três castanheiras se somam à narrativa pessoal da moradora sobre os quase vinte anos que já viveu ali.
“Sim, eu quero continuar no Cuniã”
Existe uma palavra que aparece, de formas diferentes, em quase toda conversa sobre o turismo no Cuniã: limite. Não é acaso. Antes de virar atrativo, o excesso de jacarés na reserva já havia se tornado, durante anos, um risco concreto para quem vivia ali.
“Antes tinha muito jacaré e a gente ia pescar tudo aqui por água. A maioria de todas as atividades que vai fazer na água tinha todo dia o contato direto com animais. Às vezes tinha acidente”, relembra Leonardo Alan de Oliveira Barros, o Alan Jacaré. “Já teve acidente com vítima fatal.”
A resposta encontrada não foi afastar o animal, mas administrar sua presença a partir de uma ideia muito promissora. O manejo de jacaré-açu em vida livre, hoje um dos principais símbolos do Cuniã, nasceu justamente dessa necessidade, muito antes de integrar a experiência turística da reserva . A cota de abate é calculada todos os anos por um censo conjunto do ICMBio e do Ibama, que determina, com base em dados de população, quantos animais podem ser retirados sem comprometer o equilíbrio da espécie.
“Eles fazem uma cota lá, vai ser abatido 2%, 1% da população geral. Esse ano a cota está em 1600, 1700 animais. Só pode abater o macho de um metro e 80 a três metros e 20”, explica Alan. “Depois do manejo, reduziu 90% os acidentes.”
Do ponto de vista científico, a lógica por trás do manejo é a mesma. “Como biólogo, eu vejo isso com bons olhos, porque desde que uma espécie está superpopulosa, ela precisa ser controlada. Se não tem um predador natural pra fazer esse controle, às vezes é necessária a intervenção humana”, avalia Terassini. “Esse manejo mantém a população sempre estável, e não em ordem crescente, o que preserva também as espécies que estão abaixo na cadeia, como os peixes de que o próprio jacaré se alimenta.”
O mesmo raciocínio orienta o turismo que hoje se organiza em torno do animal, e não é exclusividade do manejo de fauna. É a mesma preocupação que Jorge Ferreira Lopes, o cozinheiro, levanta quando fala do fluxo de visitantes que a reserva pode receber sem se desequilibrar. É a mesma lógica que Radulan Felipe Gonçalves descreve ao explicar por que uma trilha precisa descansar cinco ou seis anos depois de três anos de uso. Em cada uma dessas falas, a ideia se repete com outras palavras: dá para usar, mas não para esgotar.
Esse tipo de limite não nasceu de uma cartilha ambiental importada de fora. Nasceu de experiência acumulada, muitas vezes de forma dolorosa, como no caso dos acidentes com jacaré antes do manejo. A Amazônia já viveu, mais de uma vez, o oposto disso: ciclos econômicos inteiros, como o da própria borracha que trouxe as primeiras famílias para a região, se sustentaram por décadas até esgotarem o que exploravam e desaparecerem, deixando pouco além de vestígios. O limite virou, no Cuniã, uma resposta aprendida a esse padrão.
É nesse ponto que o turismo de base comunitária entra como peça central, e não como coadjuvante bonito de uma história sobre natureza. Sua função vai além da geração de renda. É alinhar o interesse econômico de quem vive na reserva com o interesse de manter a floresta e o lago intactos, de um jeito que outras atividades extrativistas, historicamente, não conseguiram fazer.
“O turismo, o ecoturismo, dentro dessas áreas, o turismo sustentável vem mostrando para a sociedade de modo geral que é sim possível desenvolver na Amazônia, realizar atividades econômicas na Amazônia que causam o menor impacto possível ao meio ambiente, às populações tradicionais e a tudo que é da Amazônia”, resume o professor Gustavo Gurgel do Amaral.
Na prática, esse alinhamento funciona porque quem decide, todos os dias, se vai pescar além da conta, se vai abrir uma nova área de roça ou se vai respeitar o tempo de descanso de uma trilha é a mesma pessoa que hoje recebe parte da sua renda de quem vem visitar essas mesmas áreas preservadas. O incentivo para conservar deixa de ser uma obrigação abstrata e passa a ser também um interesse concreto. Se o jacaré desaparece, desaparece com ele o motivo de existir a focagem noturna. Se a floresta acaba, acaba também o motivo de o turista pagar para caminhar por ela.
Isso não significa que o modelo já esteja consolidado, nem que funcione sem tensão. O próprio Alan reconhece que a confiança no turismo ainda é recente e está sendo construída aos poucos.
“Hoje em dia o turismo é bem visto no Lago do Cuniã, e a galera da associação da comunidade está acreditando no turismo, que já está dando certo. A gente é muito recente, a gente não tem nenhum ano operando ainda, é tudo muito recente, a gente está se adaptando”, pondera.
É essa combinação, entre um sistema de limites já testado (o manejo do jacaré) e um sistema mais novo e ainda incerto (o turismo como um todo), que define o momento atual do Cuniã: nem um modelo pronto para ser exportado como fórmula, nem uma tentativa isolada fadada a fracassar, mas um experimento em andamento, sustentado por quem tem mais a perder se ele não der certo.
Para as crianças que crescem em meio a esse equilíbrio, o resultado é uma relação com a fauna que soa, para quem vem de fora, quase impossível. Bento e Jamily, moradores da reserva ainda crianças, contam sem qualquer sinal de medo sobre a convivência diária com os jacarés que cercam suas casas.
“Não tem não medo não”, garante um deles, quando perguntado se tem receio do animal. “É o jacaré que tem medo de ti, né?”
Perguntados se pretendem continuar morando ali quando crescerem, os dois não hesitam.
“Sim, eu quero continuar no Cuniã”, respondem.
O viver em comunidade
Se existe uma ideia que atravessa todas as outras nesta reportagem, ela não está em nenhum dado, nem em nenhuma cota de manejo. Está numa frase dita por Sheila Barros da Silva, moradora há 30 anos e uma das vozes mais antigas na construção do turismo na reserva, quando perguntada sobre o que ela espera que quem vem de fora entenda sobre o Cuniã.
“A cultura daqui é que a gente não venha só visar lucro, mas a vida da gente aqui, né? Quer melhoria? Sim. Mas também não vamos mudar radicalmente”, diz Sheila. “Tem que ter primeiro o respeito à comunidade, às suas culturas, suas raízes. Nós moramos aqui há 30 anos, muita gente nasceu e se criou aqui, e todo mundo tem orgulho de morar aqui. A gente quer que isso seja preservado pros filhos, pros netos, seguindo as gerações.”
É uma frase que poderia soar piegas, se não estivesse sustentada por um mecanismo concreto, criado pela própria comunidade para garantir que ela se cumpra. Esse mecanismo tem nome: governança turística. Formada por moradores eleitos dentro da Associação Geral dos Moradores do Lago do Cuniã (ASMOCUN), com representantes de cada um dos quatro núcleos, é ela quem decide, na prática, como a renda do turismo circula dentro da reserva. Sheila preside o grupo. Domingos Gonçalves Braga, hospedeiro do núcleo Araçá, é o vice-presidente.
“Quando vê um grupo maior, divide entre as pousadas e os restaurantes para todo mundo ter a sua renda. E através disso a gente já distribui também os guias: pega um guia lá da Silva Lopes, um guia da Pupunha, do Neves, do Araçá. A gente já faz essa distribuição para todo mundo ser beneficiado por aquele grupo que está vindo”, explica Domingos.
Esse sistema de rotatividade nasceu de uma memória recente, e desconfortável, de como era a visitação antes de existir qualquer forma de organização coletiva.
“Aconteceu de barco entrar aqui com 20, 30 pessoas e ficar dois, três dias. O morador não recebia nada por aquilo, o pessoal ficava hospedado no próprio barco. A gente não ganhava com restaurante, não ganhava com pousada. Isso aí era uma coisa ruim pra gente”, lembra Domingos, sobre o período anterior à criação da governança, quando grupos de fora passavam pela reserva sem que a presença deles se traduzisse em renda para quem morava ali.
A diferença entre esse cenário e o atual não é sutil: é a diferença entre visitação e exploração. No primeiro caso, o lugar existe para ser consumido por quem vem de fora. No segundo, a presença de quem vem de fora só se sustenta se beneficiar, de forma comprovável e distribuída, quem já estava ali. É esse deslocamento, de objeto de visita para sujeito da própria economia, que a governança turística tenta, com todas as suas limitações, garantir.
Não é um sistema imune a tensões. Distribuir grupos de forma equilibrada entre quatro núcleos separados por trechos de rio, cada um com pousadas, restaurantes e guias com capacidades diferentes, exige negociação constante, e a própria ASMOCUN reconhece que o processo de precificação e organização de pacotes, tocado hoje em parceria com a Prefeitura de Porto Velho e o Sebrae, ainda está em andamento. Mas o princípio que sustenta esse esforço todo é o mesmo que Sheila resume em uma frase: a comunidade aceita crescer, mas não aceita se descaracterizar para isso.
É esse mesmo princípio que explica por que, apesar de a Resex existir juridicamente desde 1999, a ASMOCUN que a tornou possível é, na prática, mais antiga que a própria unidade de conservação, e segue sendo o centro de decisão sobre o que entra e o que não entra na vida da reserva. Antes de qualquer reconhecimento federal, a comunidade já havia decidido, entre si, que preferia se organizar a se dispersar. O turismo, hoje, é apenas o capítulo mais recente dessa mesma escolha.
O que ainda está para acontecer
Tudo o que esta reportagem descreve até aqui está, de alguma forma, em construção. O turismo formal no Cuniã começou a fluir em novembro de 2024. O frigorífico de jacaré, símbolo gastronômico da região, está parado desde 2023, com retomada prevista apenas para 2026. A tabela oficial de preços de passeios, pousadas e refeições ainda está sendo definida por uma empresa contratada pela Prefeitura de Porto Velho e pelo Sebrae. Não é uma história fechada. É uma história em andamento - e talvez seja exatamente por isso que valha a pena contá-la agora.
A expectativa de quem lidera essa construção é clara: crescer sem perder o controle sobre o próprio crescimento. Leonardo Alan de Oliveira Barros, o Alan Jacaré, resume o horizonte que a governança turística persegue.
“A expectativa é de atrair público de outros estados, de outros países. Hoje o nosso turismo ainda está mais centrado aqui no estado, mas com o alcance das redes sociais, a gente entende que dá pra captar turistas de outros lugares, e isso melhoraria a renda de todo mundo no Lago do Cuniã”, projeta Alan.
É uma expectativa que já começa a se confirmar, ainda que em pequena escala. Alecyr Pereira, turista carioca, é prova disso: encontrou o Cuniã por acaso, por meio de uma indicação informal, sem que nenhuma campanha de divulgação o tivesse alcançado antes. Quando perguntado sobre o que falta para o lugar ser mais conhecido, sua resposta não hesitou.
“Acho que é mais divulgação mesmo. Eu tinha procurado bastante coisa nos arredores de Porto Velho para fazer, e esse não foi um lugar que eu tinha encontrado. Em termos de estrutura, o que eu vi já tem um desenvolvimento bom. Acho que a divulgação vai ajudar o lugar aqui”, avalia.
O que fica depois da visita
O Cuniã não está tentando virar outra coisa para receber quem vem de fora. Está tentando continuar sendo o que sempre foi e descobrindo, aos poucos, que isso também pode sustentar quem mora ali.
Ninguém descreve o que está em jogo nessa tentativa melhor do que o próprio Alan, quando confrontado com a distância entre o que a reserva já viveu e o que vive hoje.
“Quem chega aqui agora não entende o que a gente já passou no passado. Há vinte anos, dez anos atrás, a gente vinha nessa luta pro turismo ser legalizado dentro do Lago do Cuniã. E hoje é uma coisa que está se tornando realidade, e está mudando a vida de muita gente. O Cuniã está sendo conhecido nacionalmente e internacionalmente. Pra mim, a maior alegria é essa: eu quero mostrar aquilo que a gente viveu a nossa vida, pra outras pessoas que não têm nem ideia de como é viver dentro de uma reserva extrativista como o Lago do Cuniã”, resume.
Existem lugares na Amazônia que se visitam para ver algo. O Cuniã é mais bem descrito como um lugar que se visita para entender algo: que é possível ficar, em vez de partir; que é possível usar sem esgotar; que uma reserva extrativista não é uma promessa de atraso, mas uma aposta deliberada em outro tipo de futuro, testada por gente que já viu de perto o que acontece quando esse limite não existe.
O biólogo Flávio Terassini, depois de anos estudando diferentes pontos da Amazônia, também compartilha essa percepção. “Já visitei o Amazonas, o Acre, conheço bem o Pará. E o Lago do Cuniã eu acredito que é um dos mais bonitos da Amazônia, e o mais bonito de Rondônia”, diz. “O pôr do sol ali é magnífico, o nascer do sol também. Quem acorda ali ouvindo o som dos pássaros sente uma paz muito grande.”
No estado cujo hino promete um céu sempre azul, existe um lugar onde essa promessa se reflete, literalmente, na água. Depois de uma visita ao Cuniã, fica a lembrança de que, ali, tudo o que se consegue pensar ainda é natureza - e que isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque alguém decidiu que deveria continuar assim.
Nota da Redação:
Um meandro é uma curva acentuada no curso de um rio, uma volta ou sinuosidade de um caminho, e também um sentido figurado para coisas complexas ou cheias de voltas.
Meandro abandonado: Com o tempo, o rio pode cortar a curva e seguir reto, deixando a curva antiga isolada em forma de ferradura.
Que tal conhecer os outros episódios da série Destino Amazônia?