Por Vanessa Monteiro*
Existe uma tradição antiga em algumas regiões, que não sei se ainda é comum, de enterrar o umbigo do recém-nascido no quintal de casa. Assim que o umbigo cai, ele é cuidadosamente enterrado. Os antigos diziam que isso nos deixava pertencentes àquele lugar, que criava um vínculo com a terra, com o território.
O meu está enterrado na periferia de Icoaraci, distrito de Belém (PA), mais precisamente no quintal da casa da minha avó. Não sei se é essa relação umbilical que deixa a sensação de pertencimento muito forte e palpável para quem nasce por essas bandas. Ou se é a relação com a água, pois somos um povo que seca se não molharmos as nossas escamas, no rio ou na chuva. Também pode ser a nossa comida, que tem a dose certa entre nutrição e veneno. Ou quem sabe a música, tão diversa quanto as vozes cheias de sotaque e palavreados únicos de quem vive por aqui. O fato é que muito disso nos constitui como nortistas e como amazônidas, já que os sete estados do Norte englobam a maior parte da Amazônia Legal, bioma que ainda abrange parte do Maranhão e do Mato Grosso.
É por isso que a gente gosta de falar daqui e leva essa vivência para onde quer que a gente for.
Afinal, quem melhor para falar de um lugar do que as pessoas que vivem nele? Quem melhor para falar de Amazônia do que um amazônida?
Nossa casa, nossas vozes
Mas não é o que costumamos ver quando acessamos alguns portais de notícias de fora da região, quando assistimos a alguns jornais e ligamos a TV. A nossa casa muitas vezes está lá na tela, geralmente vista de cima, até estereotipada, por vezes caricata, sempre com seu enorme tapete verde, sendo analisada por alguém cujo sotaque não reconhecemos. E nos perguntamos: por que não nos chamaram para falar da nossa casa se somos nós que moramos nela?
Para muitos jornalistas e veículos de comunicação do restante do país, consultar os moradores dessa casa não é um critério considerado. E a primeira fonte ouvida pelas equipes de reportagem está a quilômetros de distância de quem mora nos estados que compõem a Amazônia Legal.
A questão não é a qualidade da fonte de fora que é consultada. É a cultura de não nos procurarem como fonte especializada. É a facilidade com que não se cogita ou se descarta uma busca por vozes da nossa região. Como se não existíssemos, como se fôssemos um vazio intelectual e científico.
Além de lidar com a falta de interesse na ciência produzida na região, a pesquisa na Amazônia também luta contra o algoritmo. Uma batalha difícil quando já se sabe que houve uma queda drástica de alcance de conteúdos de ciência de modo geral. O algoritmo mostra a resposta rápida, a que aparece primeiro, gerada por inteligência artificial e não necessariamente por uma fonte especializada. Instituições que possuem mais recursos, assim como a imprensa que porventura dispõe de mais tecnologia, podem usar ferramentas para potencializar suas notícias, tornando assuntos mais visíveis nos buscadores. Visibilidade traz recurso, traz bolsas, traz possibilidade de investimento e parceria.
Em um treinamento com veículos de abrangência nacional, perguntei aos jornalistas palestrantes quais eram as fontes científicas locais que eles procuravam quando a pauta era Amazônia. Afinal, só no Norte temos 11 universidades federais, sem falar nos institutos e outros renomados centros de pesquisa, pioneiros na região, com pesquisas que fizeram e fazem a diferença para o país. A resposta: não procuravam. O principal argumento é que o ritmo da reportagem não facilita. O deadline apertado do jornalista, a vantagem de já ter um contato à mão. Mas pergunto: será que são argumentos baseados em experiências reais com assessorias de imprensa e fontes locais? Ou é o imaginário de que aqui não há essa estrutura? São experiências tão diferentes assim em relação às buscas de fontes de fora daqui? Por que nosso contato também não pode estar à mão?
Em um curso sobre jornalismo científico, uma palestrante visitante disse: “Nossa, eu não sabia que tinha tanta gente boa aqui”. Diante dessa aparente surpresa, vale a reflexão: e por que não teria? Por que não seríamos?
Só no estado do Pará, onde nasci, trabalho e tenho vivência, estão localizadas quatro das universidades do Norte, incluindo a maior da região, que é a Universidade Federal do Pará (UFPA), instituição com programas de pós-graduação com conceito Capes 7, que é o conceito máximo concedido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) a um programa de pós-graduação stricto sensu. Isso significa um nível de excelência equivalente aos centros de pesquisa mais renomados do mundo. Também é no Pará que está a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), a primeira e única no Norte do país. É o estado onde está a instituição científica mais antiga das Amazônias, o Museu Emílio Goeldi (MPEG). O Estado também abriga um dos principais centros de referência em pesquisa em saúde do país, com reconhecimento de organismos nacionais e internacionais, que é o Instituto Evandro Chagas (IEC), sem falar no Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), instituição científica sem fins lucrativos, premiada pela ONU por ser pioneira no monitoramento da floresta com tecnologias geoespaciais avançadas e inteligência artificial.
Nos outros estados que compõem a região Norte, há produções científicas igualmente ricas e relevantes, gigantes como nosso território. Além de tudo isso, temos inúmeros museus e ecomuseus, artistas, ativistas, ciência indígena, mestres e mestras da cultura popular, patrimônios materiais e imateriais. Fontes não apenas acadêmicas, mas de imensa sabedoria que cresce no dia a dia e no chão dos territórios.
Uma das iniciativas para reunir algumas dessas fontes foi o “Vocação Amazônia: vozes, ciência e comunicação na Amazônia”, projeto liderado pelo Amazônia Vox com apoio do Instituto Serrapilheira e do International Center for Journalists (ICFJ). O projeto ampliou o trabalho e reuniu bolsistas e tutores de todos os estados da Amazônia Legal, incluindo a mim, que fui tutora no Pará. Durante alguns meses pesquisamos e fizemos o mapeamento de cientistas formados pela academia e pela sabedoria popular. Conhecemos pesquisadores renomados, artistas, lideranças indígenas, ribeirinhas, quilombolas e mais uma diversidade de vozes dispostas a auxiliar diretamente em todas as reportagens e discussões que se fizerem sobre a nossa região. Se para alguns pode ser difícil ter o contato “à mão” de quem fala da Amazônia a partir da Amazônia, acredito que as mais de 1.200 fontes mapeadas e disponíveis no site podem ajudar a rever esse pensamento.
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Vanessa Monteiro durante evento do Amazônia Vox na II Semana do Clima. - Crédito foto: Marcio Nagano.
Quando a Amazônia vira uma descoberta para quem olha de fora
Não dá nem para mensurar o quão rica fica uma reportagem quando nos ouvem. O quanto de novas ideias, soluções, histórias, inquietações e denúncias (também) são possíveis quando se escuta um amazônida. Por outro lado, a falta dessa consulta pode dar margem a erros, tanto de apuração quanto de análise. Para além da clássica confusão de misturarem Norte e Nordeste, deixar de ter o olhar de quem é da região padroniza o que não é padronizável. Falta a compreensão do que é “ser” daqui. Falta repertório.
Um dos equívocos mais recentes, que ficou famoso durante a COP30, em Belém, foi durante a apresentação do Cordão da Bicharada, manifestação cultural criada na década de 70 pelo mestre Zenóbio, na Vila de Juaba, município de Cametá (PA). No cordão, os integrantes, geralmente moradores da Vila, costumam se vestir de animais para levar mensagens de conscientização sobre o meio ambiente. Durante a apresentação na COP, foram ridicularizados por alguns veículos de fora da região, que disseram que “atores rastejavam pelo chão”, que eram “ridículos”, que “pagaram mico” e que aquilo era “constrangedor”. Não houve uma busca simples sobre o que era, nem o interesse por entender o que significava. Coube aos veículos locais explicar a manifestação, consultar historiadores, os mestres e os participantes. Fazer o trabalho de casa.
Quando o Brasil foi indicado ao Oscar por “Ainda estou aqui” e “Agente Secreto”, a comoção pela representatividade foi incrível, ao mesmo tempo em que os brasileiros ficavam indignados pelo total desconhecimento dos gringos sobre os atores maravilhosos que estavam no filme. Muitos se aborreciam quando repórteres estrangeiros perguntavam se a mãe de Fernanda Torres era atriz, se ela e Wagner Moura já tinham feito outros papéis ou se já tinham pensado em trabalhar com comédia. Perguntas cujas respostas eram tão óbvias para um brasileiro que soavam até ofensivas. Como assim os estrangeiros não sabiam disso? Como não se informavam antes de fazer essas perguntas? E que pena perderem tanto por não conhecerem o Brasil.
É esse o sentimento de quem é das Amazônias. Nos surpreendemos com a falta de conhecimento sobre nós, porém dentro do nosso próprio país. A gente também vibra quando um dos nossos faz sucesso, somos bairristas e torcemos, como se estivéssemos juntos - e a verdade é que estamos. Também nos causa surpresa quando anunciam como “descoberta” algo que já estudam por aqui há anos e que uma simples pesquisa em um buscador poderia ajudar. Nos surpreendemos quando noticiam alguns pioneirismos, sendo que aquilo já faz parte do nosso dia a dia há muito tempo. Nos enchemos de orgulho quando se encantam com nossa música, com nossas tecnologias sociais, com nossa cultura e capacidade de propor soluções para os problemas da nossa região a partir da nossa região. Ao mesmo tempo em que ainda nos deparamos com essa participação e contribuição apenas como uma “cota amazônica” em eventos e reportagens, com um espaço pré-determinado de poucos minutos ou duas linhas.
Uma vez estive em um evento com representantes de um veículo de abrangência nacional que disseram que era muito caro mandar equipes para cá, então eles deixavam de cobrir muitos temas. Sim, a gente sabe. O custo Amazônia é alto. Mas temos faculdades de jornalismo em todos os estados da região, formando jornalistas há anos. “Nos contratem, nós já estamos lá”, disse uma pessoa na plateia do evento, que logo reconheci pelo sotaque.
Jornalistas das Amazônias chegam a percorrer distâncias de avião, barco, estrada e a pé para chegar a uma história que outros não querem ouvir ou não podem ir. Só o estado do Pará é quase duas vezes maior que a França e 13 vezes maior que Portugal. O município de Altamira (PA) é o terceiro maior do mundo. De Santarém (PA) para Parintins (AM), municípios de estados vizinhos, uma viagem de lancha/barco pode demorar de oito a 30 horas.
A responsabilidade dos veículos de nos ouvirem aumenta quando sabemos que a região Norte tem pelo menos 193 municípios que não possuem nenhuma cobertura jornalística feita por veículos de imprensa local ou independente, lugares que são chamados “desertos de notícias”. A situação é grave e deixa a população à mercê de violações sem registro de imprensa e sem canais que amplifiquem as denúncias. O índice mais alto é no Pará, estado que possui mais municípios em toda a região e onde o deserto de notícias atinge 53 dos 144 municípios, segundo contabilizou o Atlas de Notícias 2025.
Cada voz é uma gota
Como jornalista de ciência do Norte e cria das universidades públicas daqui, eu vejo como um compromisso pessoal e ético buscar ao máximo entrevistar cientistas e outras fontes da região sempre que fizer uma pauta. Quero lembrar sempre de onde está enterrado meu umbigo, como eu disse lá no início do texto. E contribuir para fortalecer o que é nosso, ao invés de repetir ou aceitar o modus operandi indicado pelo que vem de fora.
Cada entrevista publicada vai pro Lattes do pesquisador, para o curriculum do jornalista e às vezes para um quadro na sala de quem se sentiu finalmente ouvido. Cada reportagem de fôlego pode influenciar políticas públicas e ajudar na realização de melhorias para a região. Cada oportunidade é uma possibilidade diante do algoritmo. E cada nome amazônida citado é uma gota na imensidão da internet.
Se firmarmos esse compromisso, de juntos valorizarmos e ampliarmos as vozes da nossa região, uma hora todas essas gotas viram chuva. Tu já viste ou sabes como é uma chuva amazônida?
Nós sabemos. Nos perguntem.

*Vanessa Monteiro é jornalista especializada em ciência e mestra em comunicação. Recebeu menção Honrosa no prêmio Impa 2026 na categoria Divulgação Científica; foi premiada na categoria online do 41º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo; foi premiada no 5º prêmio de Comunicação José Luiz Setúbal na categoria melhor texto e finalista no prêmio Megafone de ativismo 2025, na categoria melhor reportagem. Também foi mentora no Pará do programa “Vocação Amazônia”, uma iniciativa do Amazônia Vox em parceria com o Instituto Serrapilheira e ICFJ (International Center for Journalists) para mapear fontes amazônidas. E atua como jornalista na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).
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