Como a Amazônia deve liderar a nova matriz econômica brasileira

2026-06-12 17:00:00

Por Janaina Galvão*

O Brasil vive hoje uma virada de chave: a ambição de viabilizar uma transição de um modelo meramente exportador de commodities para outro focado na potência da bioeconomia de alto valor agregado. Este movimento une tecnologia de ponta a conhecimentos ancestrais para criar cadeias produtivas que não dependam da destruição, mas da conservação da floresta em pé. Só no país, o potencial econômico do bioma amazônico é estimado em cerca de US$ 140 bilhões até 2032, de acordo com estudo da Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil) e da Systemiq.

Esse potencial, no entanto, depende da construção de instrumentos financeiros mais aderentes às realidades produtivas, sociais e territoriais da Amazônia, considerando diferentes escalas, ciclos econômicos e formas de organização produtiva e social.

É justamente esse movimento que mobiliza indústrias, investidores, povos originários, ribeirinhos e todo o ecossistema empreendedor. De olho nessa movimentação, a capital do Pará, Belém, assumiu, entre os dias 12 e 14 de maio, a condição de fiadora - e também de protagonista - dessa agenda, como já ocorreu durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30.

Belém sediou, nesses três dias, a terceira edição do Bioeconomy Amazon Summit (BAS), que se consolidou como um espaço de articulação de soluções sustentáveis. O evento não foi apenas um fórum de debates, mas um mercado de articulação entre inovação e território, conectando conhecimentos tradicionais, ciência, inovação e diferentes atores do ecossistema financeiro em torno de soluções mais inclusivas e territorializadas para a bioeconomia amazônica. 

Realizado pelo BAS Convergence Hub em parceria com o Jornada Amazônia, com co-realização da Fundação Amazônia Sustentável e do projeto Sustenta e Inova, coordenado pelo Sebrae Pará, com parceria do CIRAD, EMBRAPA e IPAM, e financiamento da União Europeia, o evento conta ainda com o patrocínio do Governo do Pará, Fundo Vale, Agence Française de Développement (AFD), Expertise France - no âmbito do Programa AMABIO - e Instituto Itaúsa. Também recebe apoio de ABDI, Amazon Investor Coalition, Athias Soriano Advogados, BID, Carrefour, Cesupa, DIBB, ERM, FIEPA, IPAM Amazônia, Itaipu Binacional, Jundu, KFM, KPTL, Kyvo, MCQ Law, Natura e Viga.

O BAS 2026 evidenciou uma dimensão central dessa transformação ao destacar o papel de startups e empreendimentos inovadores que vêm transformando o cenário local. As soluções apresentadas foram desde iniciativas de nutrição a partir de ingredientes da floresta até tecnologias como os chamados “barcos voadores”, que prometem revolucionar a logística fluvial amazônica ao reduzir custos e pegada de carbono. Houve ainda iniciativas voltadas ao controle de incêndios florestais e à implementação de sistemas agroflorestais regenerativos em larga escala.

A continuidade desse debate já aponta para uma ampliação da articulação regional em torno da bioeconomia amazônica. A próxima edição do Bioeconomy Amazon Summit será realizada em Manaus, em maio de 2027, reforçando a construção conjunta entre diferentes territórios e atores estratégicos da Amazônia e proporcionando a oportunidade de observar, de forma concreta, as transformações econômicas e sociais impulsionadas pela sociobioeconomia na região.

Nesse contexto, iniciativas voltadas à inovação financeira tornam-se estratégicas para ampliar a capacidade de investimento em modelos econômicos alinhados à conservação e à inclusão produtiva. O Programa AMABIO, por exemplo, é uma iniciativa financiada pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e implementada pela Expertise France, voltada a impulsionar a inovação no ecossistema financeiro para fortalecer a bioeconomia na Amazônia.

Em parceria com bancos públicos de desenvolvimento e outras instituições financeiras, o programa fortalece capacidades, instrumentos e processos voltados ao financiamento inclusivo da bioeconomia, aproximando a cooperação internacional, o sistema financeiro e as realidades dos territórios amazônicos. A proposta é contribuir para que soluções financeiras reconheçam diferentes escalas, ciclos produtivos, riscos e formas de organização territorial presentes na Amazônia.

O papel das políticas públicas

Esse movimento de transformação econômica não ocorre no vácuo. Ele é impulsionado pelo Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), lançado em abril de 2026, que estruturou o suporte necessário por meio de três pilares fundamentais:

  • Fomento ao Crédito Verde: linhas de financiamento específicas para negócios regenerativos. Só o programa Caminho Verde Brasil, do Governo Federal, prevê US$ 60 bilhões nos próximos dez anos para restauração de áreas degradadas e promoção de práticas sustentáveis;

  • Incentivos à CT&I: investimento massivo em Ciência, Tecnologia e Inovação voltado para a biotecnologia. A área tornou-se prioritária para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que dobrou os investimentos nos últimos três anos, alcançando R$ 50 bilhões;

  • Regularização e Inclusão Social: políticas voltadas à valorização dos conhecimentos tradicionais e ao protagonismo das comunidades locais nas cadeias da bioeconomia.

Muito embora a conexão entre o que se discute no BAS, as políticas públicas de Estado e a agenda climática mundial seja direta, é preciso observá-la sob uma perspectiva global. O BAS 2025 já funcionou como uma antecipação da COP30. Agora, pelo menos do ponto de vista do Brasil, a agenda começa a influenciar as diretrizes da COP31.

O Brasil quer demonstrar que a conservação da Amazônia não é apenas uma agenda ambiental, mas uma agenda central para a transformação econômica e climática das próximas décadas, envolvendo múltiplos atores estratégicos.

Há uma percepção crescente de que a Amazônia terá papel estratégico nas discussões sobre economias de baixo carbono, financiamento climático e bioeconomia nas próximas décadas. Todos esses elementos apontam para uma transformação econômica global na qual a Amazônia tende a assumir papel cada vez mais estratégico. E isso não é projetado apenas para a Amazônia brasileira, mas para toda a Pan-Amazônia sul-americana. Se assim for, florestas tropicais espalhadas pelo planeta também precisarão se conectar, fortalecendo e aprofundando ainda mais esse debate.

Mais do que uma pauta ambiental, a bioeconomia amazônica desponta como uma estratégia econômica capaz de reposicionar o Brasil no cenário global. O desafio agora é transformar potencial em uma estrutura permanente e perene de financiamento, inovação e cooperação, garantindo que os territórios amazônicos estejam no centro dessa nova matriz econômica.


Quem é a autora?

*Janaina Galvão é chefe do Programa AMABIO na Expertise France.

Janaina Galvão é chefe do Programa Amabio na Expertise France, iniciativa de cooperação entre o Brasil e a França, que tem como objetivo mobilizar investimentos e promover o desenvolvimento sustentável e a bioeconomia na região amazônica. Executiva com mais de 15 anos de experiência em desenvolvimento internacional e políticas públicas, traz no currículo passagens por organizações de relevância global como Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Com forte atuação na Amazônia, é especialista em parcerias estratégicas, articulação intergovernamental e desenvolvimento de soluções locais focadas em sustentabilidade e inclusão social.

 

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