Um incêndio não define a COP30. A Amazônia, sim.

2025-11-21 08:10:00

Texto de Ana Carolina Cazetta e Caroline Rocha. Foto de Marcio Nagano.

Desde que Belém foi escolhida como sede da COP 30, a Amazônia tem recebido mais atenção, seja em forma de críticas ou elogios. No entanto, é crucial questionarmos se essa visibilidade se volta para uma Amazônia idealizada ou se estamos dispostos a encarar a sua realidade complexa.

A COP na Amazônia veio para que todos pudessem ver de perto a realidade da região. O evento demonstrou a potência do povo e dos profissionais que trabalharam incansavelmente para defender a permanência da cidade como sede da conferência. A hospitalidade também foi uma marca desta edição do encontro climático. As soluções e a pesquisa de alto nível realizadas na região tiveram palco em diversos pavilhões. 

A escolha da cidade também revelou o calor extremo e um ineficiente planejamento urbano, que causa alagamentos em Belém quando ocorrem grandes chuvas, os nossos "torós", resultado de anos de exploração da região, problemas esses que também são típicos em diversas outras regiões do Brasil. É importante que as pessoas responsáveis por negociar o futuro do planeta vejam de perto realidades causadas pelas mudanças climáticas. 

O foco de incêndio que ocorreu na tarde de 20 de novembro - que não tem relação com a cidade de Belém ou sua infraestrutura - pegou a todos de surpresa. Não minimizamos isso. Questões como essa podem ocorrer tanto dentro quanto fora da Blue Zone. Ninguém ficou ferido, todos estão bem e rapidamente o fogo foi controlado. O ponto central é que este não é o símbolo desta COP.

O símbolo desta COP é o espírito do mutirão. Um mutirão puxado pela Presidência e abraçado pela população que construiu um evento lindo. Desde o início da conferência, a Presidência da COP trabalhou para ser o mais transparente possível. Reuniu-se diversas vezes com a sociedade civil; nomeou uma mulher negra da periferia para ser a Jovem Campeã do Clima, Marcelle Oliveira, que está fazendo um trabalho belíssimo com as juventudes do mundo e engajando seriamente com os debates; direcionou cartas para diversos setores da sociedade em preparação para a COP e, em momentos de pressão, demonstrou-se aberta ao diálogo, com conversas com a sociedade civil, como no ato dos povos indígenas Mundurukus na primeira semana.

Para além disso, a sociedade paraense mobilizou-se fortemente defendendo a manutenção da COP em Belém. Foram anos de trabalho, de questionamentos, tentativas de desmobilização, para que, no fim, a COP finalmente chegasse sem que pudéssemos acreditar. 

Diversos empregos foram gerados e diversos voluntários engajaram todos os dias na Conferência. Ainda assim, falas preconceituosas e ausências, já esperadas diante do contexto político e do histórico de COPs anteriores, tentaram ganhar espaço no lugar da mobilização. 

O verdadeiro legado dessa COP é a possibilidade de participação massiva da Amazônia, com o credenciamento de diversas organizações e universidades da região ao quadro da UNFCCC. É o investimento que a cidade recebeu. É a quantidade de projetos e iniciativas voltados ao povo da região, como o projeto Jovens Embaixadores pelo Clima, do Climate Reality Project Brasil, que, este ano, destinou todas as vagas aos Jovens da Região Metropolitana de Belém. 

É a participação popular para além da Blue Zone, que encheu a Green Zone e casas ao redor da cidade em torno do debate climático, a ponto de esgotar brindes de uma iniciativa que convidava a população a conhecer espaços da cidade que foram organizados pela sociedade civil.

Acima de tudo, não podemos perder de vista o objetivo da COP: um momento de discussão entre os países sobre os compromissos climáticos estabelecidos e sobre a necessidade de continuá-los para garantirmos a nossa sobrevivência, como destacou Antonio Guterres, Secretário Geral da ONU, na manhã daquele dia.

Muito além de problemas de infraestrutura, que são comuns às COPs, o importante são as negociações e as soluções apresentadas pelo povo Amazônida e pelos Brasileiros. Que o incêndio pontual, que não deixou feridos e foi rapidamente solucionado, não seja a imagem que levaremos desta COP. A trigésima edição deve ser lembrada pelo espírito do mutirão e pela inédita participação da Amazônia no debate global sobre a nossa sobrevivência.

Quem são as autoras?

Ana Carolina Cazetta - Coordenadora da Rede Amazônidas pelo Clima, Jovem Embaixadora pelo Clima (Climate Reality Project Brasil)

Caroline Rocha - Diretora Executiva da LACLIMA, Co-fundadora da Rede Amazônidas pelo Clima

 

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